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Insights à Beira-Cávado


Os anúncios de restrições e confinamentos a mim têm-me mandado apanhar outros ares. Desta vez rumei ao Minho.

É tão lindo! Os rios, as serras, a arquitectura, as igrejas, o mar, é tudo maravilhosamente lindo.
Sozinha por aí, as reflexões sucedem-se.

Hoje, enquanto caminhava junto ao Cávado, em espaço amplo, algumas pessoas passeavam de máscara, mesmo sem ninguém por perto. Dei-me então conta que em todos os tempos houve homens livres e escravos.



Percebo que hoje os poderosos têm mais poder do que alguma vez existiu, pois a tecnologia permite controlar toda a população mundial. Perguntei-me se seria possível mesmo assim continuarem a existir homens livres (exceptuando os que obrigam os outros a não o serem). Não consegui responder, mas percebi que para ganhar direito à vida é preciso não ter medo de perder o corpo.

A morte é uma inevitabilidade. Cientes disso, os tibetanos fazem mandalas de areia, complicadíssimas e lindíssimas, e uma vez feitas destroem-nas. Treinam assim o desapego, a aceitação de que tudo o que começa acaba, para que quando a morte surge a possam receber como amiga, e atingir a iluminação ou ganhar direito a um bom renascimento.

Vejo as paisagens lindas à volta e percebo que vão acabar para mim um dia, seja por alguém mais forte me privar da liberdade, seja porque mais cedo ou mais tarde morro. E assim com todos.



Recordo civilizações a serem invadidas, aculturadas, dizimadas. Se o mesmo estiver em curso, não é nada de novo, é só um re-make da mesma história. E percebo também que não basta ser boa pessoa para que tudo corra bem. Recordo o Dalai Lama, expulso do seu país aos 12 anos, e como apesar disso é feliz e compassivo. Lembro-me de perguntarem a um monge tibetano o que é que ele teve mais medo quando esteve preso e era torturado pelos Chineses e ele responder que o maior medo era perder a compaixão.

Pela primeira vez consegui olhar Jesus pregado na Cruz. Pela primeira vez pude encarar o seu sofrimento e logo de seguida reparei, também pela primeira vez, no seu Sagrado Coração. Percebi que é preciso transcender o corpo para ganhar direito à vida. Que é preciso morrer Jesus, em desapego total por si próprio e compaixão infinita por todos, para ressuscitar Cristo: ressuscitar luz, coração transbordante de amor, paz sem fim.

 


Creio que a maior parte das pessoas pensa que só existe este corpo, esta vida finita, e por isso um enorme medo de morrer. Tanto, que se esquece de viver.

À medida que as reflexões se sucedem vou tranquilizando cada vez mais. Percebo também que se um dia me derem alguma substância que altere a minha humanidade, a luz que sou vai continuar inalterada. Não preciso ter medo.

Fé. Continuo a ter fé. Se isto veio é para ser aproveitado. Que todos possamos aproveitar o melhor possível cada minuto de existência.



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